Francisco Alves a pedido da Maria Helena Fonseca
Não havia muito tempo que a Kandy me tinha vindo parar às mãos, logo desconfiei que afinal as coisas não eram assim como os técnicos as pintavam. Bastaram alguns trajectos para descobrir que afinal o trabalho que os cães-guias realizam, não é devido a treino cientificamente orientado ou a qualquer outra técnica específica, mas é antes o fruto de um dom divino que faz com que já nasçam ensinados. Assim sentencia o nosso povo, como outro dia o ouvi de uma velhota que não se cansava de murmurar à nossa passagem:
- Ainda dizem que Deus não existe!...
Mas esta minha descoberta, escutem bem, não passa de uma leve suspeita, de uma questão que urge investigar seriamente e que só poderá ser tida como certta, depois dos doutos cientistas a provarem numa grossa tese de doutoramento.
Até lá, nem por sombras mexer com o suor de quem trabalha!... E mesmo que assim seja, escutem bem, sem o afecto e carinho das famílias de acolhimento, sem as condições e trabalho científico da escola e sem o olho dos educadores, como seria possível descobrir estas estrelas no meio da plebe canina? Parecerá pouco, mas vistas bem as coisas, esse facto só por si não valerá milhões?
Com dois meses de rodagem canina, andava eu a calcorrear o velho Parque Natural de Montesinho, e ia na cerrada conversa com um amigo, encanto a que a Kandy não escapava, pois não se cansava de abanar o rabo, como a dar o seu assentimento.
Já tínhamos percorrido um largo trajecto e como íamos embalados pelo doce encanto da laracha, a safada, sem que eu me desse conta, em vez de ir em frente, na direcção da aldeia, virou levemente para a direita. Caminhámos, caminhámos e nada de escutar os cães, os galos ou o sino, indicativos precisos da proximidade do povoado.
Começou a chuviscar e lembrei-me que tinha marcado em casa um encontro com o carpinteiro para me atamancar uns escanos para a cozinha, o que me começou a preocupar, pois certamente já não chegaria a horas.
Após uma hora de caminhada, oiço ao fundo, não os latidos dos cães ou a cantilena dos galos, mas o rio a bramir furioso, pois as chuvadas de Outono já o tinham enchido de monte a monte.
O meu amigo não conhecia os caminhos da serra e a mim não me veio à lembrança que por aquele lado, onde no Verão passava o rio sem problemas, o mesmo não se verificaria nos finais de Outubro. Mas a realidade só nos entrou pelos olhos e pelos ouvidos adentro, quando demos com o nariz na fortíssima corrente que por mais que quiséssemos não conseguíamos transpor.
Voltar para trás pelo mesmo caminho implicava fazer uma caminhada de mais de uma hora, quando se atravessássemos o rio teríamos a aldeia a pouco mais de quinze minutos.
Preocupados com as pessoas em casa à nossa espera, decidimos procurar um local onde a corrente não fosse tão violenta, para podermos atravessar o rio sem problemas.
Era a margem onde estávamos quase intransitável, mas com grande esforço conseguimos romper o mato por umas centenas de metros até uma pequena planície, onde o rio se espraiava mais à-vontade e nos pareceu mais fácil a travessia.
Naquele sítio o rio não era fundo e o que tínhamos a fazer era tirar os sapatos e as calças e metermo-nos à água, pois afortunadamente ainda não fazia muito frio. Havia a Kandy, mas eu tinha conhecimento que ela sabia nadar e lá iria atrás de mim pela trela.
Com todos os pormenores acautelados, o meu amigo sugeriu que seguisse atrás dele, que ele escolheria o melhor local do leito para passar.
De calças ao ombro e os sapatos na mão, metemos ao rio, seguindo eu atrás do meu amigo com a Kandy pela trela. Mas mal a bicha se viu na água, não quis saber das prévias combinações: desatou a nadar como se de piscina olímpica se tratasse e eu não tive outro remédio que o de me agarrar ao arnês. Em menos de um credo, tínhamos ultrapassado o meu amigo e não tardou em essa distância ser de vários metros.
Pouco depois chegava eu, guiado pelo cão-guia nadador à margem enquanto o meu amigo ainda só tinha chegado ao meio do rio.
- E levou-te pela melhor saída para o caminho!... - Comentou ele a rir perdidamente.
Agora digam-me se alguém acredita que a Kandy tivesse tido treino de guia a nadar? Digam-me se alguém imagina, o Vítor educador de calças arregaçadas a passar o Mondego atrás dela agarrado ao arnês, ou feito Jesus Cristo a saltitar por cima das águas da barragem da Aguieira?
Então se não teve treino de guia a nadar, só se pode tirar uma conclusão: a Kandy, como porventura todos os outros cães-guias, nasceu ensinada.
Póvoa de St.º Adrião, 27 de Novembro de 2006