Os autocarros costumam dar boas histórias.
Sentei-me eu num banco individual e o Júnior logo se atirou para o chão, colocando-se bem debaixo do banco com agilidade e rapidez do costume.
Poucos segundos depois de nos termos ambos instalado, comecei a ouvir um barulho de saco no chão, mesmo ali perto de nós. Logo a seguir, ouviu-se uma voz saída de trás de mim que dizia, meia atabalhuada: "ah o meu pão!".
De imediato percebi que o Júnior tinha aberto o saco do pão da senhora que se encontrava pousado aos pés desta, portanto, mesmo junto ao seu focinho e que de lá roubara dois pães que engoliu em tempo não superior a 5 segundos.
Fiquei logo superaborrecida, passando-me apenas pela cabeça o seguinte pensamento: "estou tramada, a senhora e os passageiros vão-se passar! Que vergonha!".
Mas não é que a senhora logo diz: "Coitadinho, estava com fome!".
Em simultâneo, vários passageiros começaram a comentar o sucedido, aplaudindo a atitude do cachorro que, inteligente como era, soube ir buscar o que bem perto dele estava. Afinal, ele tinha fome!
Para terminar a história, ainda uma senhora dos bancos do lado oposto me perguntou: "Menina, tenho aqui pão, posso dar um ao cãozinho?".
Como vêem, às vezes, é preciso ter muita paciência! Não pude ralhar convenientemente ao cão e ainda tive que, por várias vezes, explicar que ele não tinha fome e que, por favor, não lhe dessem mais comida! E tive que o fazer nesse dia e em outros pois a história ia sendo recontada nas viagens seguintes pelos passageiros que assistiram ao episódio.
Moral da história: não se deve dar comida a um cão-guia. Ele só come ração e, pontualmente, algum biscoito ou comida que não lhe faça mal, quando autorizado pelo seu dono. Dar comida a um cão-guia é altamente prejudicial do ponto de vista físico do animal, mas também do ponto de vista comportamental.