CPUC - Utilizadores e Cães-Guia

Vida de Cão

Inimigas do peito

Teresa Maia

Era uma vez uma cadela-guia chamada Duska, de pelo bem preto. Além de excelente trabalhadora como guia era muito dedicada e afeiçoada a seus donos; ao mesmo tempo era uma cadela divertida, bem disposta, destravada, uma verdadeira “espirra canivetes”.

Era outra vez uma outra cadela-guia de pelo dourado, de seu nome Kamy.Pequena de porte, que não de qualidades, meiga lamechas ao ponto de saber muito bem como inspirar ternura e compaixão a quem a conhecia menos bem a fim de melhor levar a água ao seu moinho. E levar a água ao seu moinho era tentar todas as formas de chantagem para que compadecidos os incautos lhe dessem qualquer guloseima, como se duma esfomeada se tratasse.

Sempre que eu durmo na casa da Duska – que é uma forma eufemistíca de dizer na casa dos seus donos, mas que afinal de contas é também dela pois a Duska é um membro da família de pleno direito – a Duska de manhã vem ter ao meu quarto e indaga se eu dormi bem, pondo o focinho em cima da cama e dando pequenos pulos de alegria, claro está que sempre na mira de levar umas festinhas e ouvir-me falar para ela, pois é uma boa menina mimada e faz questão de ser assim mesmo.

Na sua habitual tentativa de comover quem dela se aproxima a jovem Kamy faz “olhinhos” põe-se em poses dengosas, mas...

Claro está que a mim não me convence, pois sei muito bem que não precisa de mendigar comida nem guloseimas, mas para quem não sabe....

Estas duas meninas tão bem dispostas, sociáveis, alegres, amigas dos humanos até à tolerância e à compreensão não raro superior à de muitos humanos no sentido mais estrito e – perdoem-me – mais Humano da palavra, não se dão nada bem entre si.

Sempre que o acaso ou os afazeres dos respectivos donos as juntam, logo a bulha, a confusão, o desacato, a rivalidade se apodera destas duas cadelas; com fúrias tão selváticas e rancorosas que raiam as dos muitos Humanos, perdoe-se-me a insistência na comparação gente/cão.

Mas é por muito gostar delas as duas e ser bastante crítica em relação às fraquezas dos ditos “SERES SUPERIORES” DA Criação que falo deste modo; pois também nesta história os animais nos ensinam.

UMA VEZ DURANTE UM ALMOÇO QUE REUNIU UM NUMEROSO grupo DE AMIGOS, DOS QUAIS BOA PARTE ERA POSSUIDOR DE CÃO-GUIA, AS NOSSAS DUAS PROTAGONISTAS NÃO FORAM DE MEIAS LADRADELAS E VÁ DE PUXAR CADA UMA PELOS SEUS BRIOS CANINOS....

Foi tal o alvoroço, o pandemónio, o pé de guerra que pouco faltou para que as mesas não fossem pelo ar.... e atrevo-me a afirmar que elas as mesas (que não as cadelas) eram pesadas e de madeira maciça.

Interrogo-me com frequência acerca das razões desta rivalidade. Pois tanto a Duska como a Camy são tão doces e afáveis para as pessoas... Tão compreensivas para as limitações dos seres Humanos...

Vá-se lá saber. São feitios....

Dizem os entendidos que também os cães têm seu feitio, sua personalidade, seus amores e desamores.

Mas que é misterioso é!

São duas legítimas e genuínas inimigas do peito.

Coimbra, 19 de Julho de 2007

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