Há seis anos e meio tive a minha primeira experiência com um cão-guia. Nessa altura, a minha mulher e eu entendemos que o mesmo cão poderia trabalhar com os dois. Achávamos que o facto de vivermos num apartamento era impeditivo para termos dois cães. Nos primeiros tempos, fui eu o feliz contemplado com a ajuda da Duska. Passados quatro meses, a minha mulher mudou de local de trabalho e começou a levá-la todos os dias. Ou seja, nessa altura decidimos que ela precisava mais dela do que eu, devido aos trajectos que fazia e ao labirinto que é a Faculdade de Letras do Porto.
Voltei, por isso, à bengala. Como devem calcular, passar de um cão-guia a uma bengala é bastante complicado. Muitas vezes suspirei pela Duska, quando não conseguia localizar rapidamente as passadeiras, quando entrava em ruas com o mobiliário urbano completamente desarrumado, quando algum condutor fazia o favor de deixar o carro em cima do passeio, etc. Poderia relatar aqui muitas das situações que se me depararam, mas seria fastidioso enumerá-las a todas. Assim, decidimos que eu deveria candidatar-me a um outro cão. No dia 18 de Setembro de 2003, por sinal o dia do meu aniversário, preenchi a minha candidatura. Nessa altura, o Vítor Costa, educador da Duska, perguntou-me tudo sobre o que eu gostava e não gostava nela. Desta forma encontraríamos o cão ideal para mim. Descrevi-lhe tudo sobre a Duska, tentei fazê-lo de uma forma racional, isto é, deixando de lado o aspecto emocional, pois como todos sabemos, são criados laços de afecto, eu diria mesmo de amor com estes nossos companheiros, dos quais, as vezes, não conseguimos abstrair-nos. Dizia eu, que contei tudo o que me ocorreu sobre a Duska. A partir daqui começou aquele processo de espera. Como diz o provérbio; "Quem espera desespera", mas como também diz outro provérbio; "Saber esperar é uma virtude", eu tive de esperar com toda a calma, e ir desfrutando da companhia e do trabalho da Duska quando era possível.
Finalmente, passados três anos e uns meses, recebi a notícia de que a ABAADV tinha um cão-guia para mim.
A sua escolha teve de ser feita, não só em função das minhas características, mas também em função do temperamento da Duska. E ela, como todos os que a conhecem sabem, tem um temperamento bastante dominante. Portanto, o meu companheiro tinha que ser integrado num ambiente onde já havia um cão-guia a trabalhar, e com um temperamento muito especial.
Fomos todos para Mortágua, a minha mulher, a Duska e eu, pois o Vítor Costa, educador da Duska e do Miró, achou importante a cadela estar presente no estágio.
Numa segunda-feira de manhã, partimos para Mortágua. Devo confessar que estava um pouco ansioso para conhecer o Miró. Não conseguia tirar da minha cabeça o pensamento de que o estágio ia ser fácil, uma vez que eu já sabia andar com um cão-guia. A advertência do Vítor para o facto de ser o primeiro estágio para o cão não me preocupava. Achava que ele estava a exagerar. Como se costuma dizer: “Eram favas contadas”. Nem sabia o erro que estava a cometer!
Nessa manhã, fizemos um reconhecimento à escola, depois de nos instalarmos. A minha ansiedade aumentava com a aproximação da hora em que ia conhecer o meu cão. Finalmente, por volta do meio-dia, lá veio o Miró. Antes, tivemos uma conversa com o Vítor, na qual ele explicou o plano que tinha para o estágio, e onde nos descreveu as características do meu futuro companheiro.
Veio o Miró, a Duska não reagiu, e nós ficámos muito contentes, pois tínhamos um certo receio da sua reacção. Nessa tarde fomos para um local em Mortágua onde fizemos exercícios de obediência com os dois cães. Faço aqui um parêntesis para explicar que o Vítor Costa dá muita importância à obediência. Acha que esta reforça a ligação do utilizador ao cão, e que ajuda a definir as hierarquias. Estes exercícios correram muito bem, embora o animal não me conhecesse de lado nenhum, e nem sempre obedecesse.
Quando voltámos à escola, estávamos satisfeitos, e eu, lá no fundo, pensava que no dia seguinte, com o arnês, as coisas iriam correr muito melhor, uma vez que já tinha experiência de trabalho com um cão-guia. Não fazia ideia de como me enganava.
Na terça-feira de manhã, depois do treino de obediência, fizemos o primeiro percurso, sem a presença da Duska. O Miró devia ter jurado que não ia andar. As minhas expectativas do dia anterior desvaneceram-se rapidamente. Eu mandava avançar e ele virava-se à procura do educador. Eu mandava ir para direita, e o Miró ficava a pensar se aquilo seria com ele. Confesso que já estava a ficar desesperado. Foi um percurso muito cansativo. O Vítor dizia-me que as coisas iriam melhorar. Lá no fundo, eu acreditava no que ele me dizia, mas não conseguia dominar a minha ansiedade.
À tarde, fizemos um percurso com os dois cães. O Miró ia na frente comigo, e a Duska seguia-nos com a Maria João. O Miró portou-se melhor do que de manhã, e a Duska teve duas demonstrações do seu temperamento ao responder de uma forma bastante activa a duas provocações de outros cães, que desataram a ladrar dentro dos seus quintais. Esta sua reacção, bastante normal nela, valeu-lhe uma reprimenda do educador, pessoa a quem ela continua a ter bastante respeito. Voltámos para a escola, e devo confessar que estava exausto. Fui para a cama a pensar que no dia seguinte as coisas iriam melhorar.
Na quarta-feira, fomos para Viseu. Quando lá chegámos, fizemos o treino de obediência, e partimos para um percurso, onde os dois cães iriam trabalhar juntos. O Vítor ainda não tinha decidido quem deveria ir à frente, mas a Duska ajudou-o. Além de ter um temperamento dominante, ela acha que é um cão-pastor. Por isso, todos devem ir à sua frente, de forma que os possa controlar. Assim, ficou decidido que eu e o Miró iríamos à frente. Agora este procedimento é por vezes alterado, mas normalmente é assim. O meu percurso com o Miró melhorou bastante. Por um lado o cão já me conhecia minimamente, e por outro eu já tinha deixado de lado o facto de já ser utilizador com experiência. Uma coisa que nos agradou bastante foi o Vítor ter referido que a Duska estava a trabalhar muito bem. Embora nós tivéssemos essa quase certeza, agradou-nos ouvi-lo da boca do treinador. Ela tem o feitio que tem, mas trabalha muito bem, às vezes achamos-lhe uma certa piada, o que se calhar contribui para continuar a ser refilona.
À tarde, fomos sozinhos com o educador, a Maria João e a Duska ficaram à nossa espera num café.
Na quinta-feira, seguimos para Coimbra sem a Duska. Ela e a Maria João ficaram na escola a descansar. Depois do já costumado treino de obediência, fizemos quilómetros em Coimbra de manhã e de tarde. O Vítor chamou-me várias vezes a atenção para o facto de eu estar a ter procedimentos de quem estava habituado a utilizar uma bengala, como por exemplo, atravessar uma avenida sem fazer a pausa no separador central por me aperceber que os carros estavam parados, a procurar determinados pontos sem deixar a iniciativa ao cão, etc. No fim da tarde, voltámos a Mortágua e descansámos.
Aproveitei para, em conjunto com a Maria João, fazer um balanço do trabalho até esse dia. Cheguei a várias conclusões. A primeira foi que apesar de já ter experiência de trabalho com um cão-guia, isso até podia ser negativo, pois desenvolvemos vários vícios. Um deles é o de confiarmos na nossa orientação e de atravessarmos as passadeiras sem esperar. Aliás, há alguns anos atrás, um educador escocês da Federação Internacional, que esteve em Leça para ver trabalhar a Duska com duas pessoas, já nos tinha chamado a atenção. Segundo ele e segundo o Vítor, o cão não vai perceber porque é que nalgumas situações pode atravessar imediatamente e noutras não. Ou seja, o comportamento deve ser padronizado. O outro problema é o de deixarmos o cão guiar-nos depressa, pois estamos confiantes, e isso pode ser prejudicial, às vezes perigoso. Finalmente, e este deve ser, na minha opinião, o maior defeito, julgamos que este novo cão é exactamente como o anterior, e eles não são iguais. Se pensarmos um pouco, chegamos facilmente a esta conclusão, uma vez que desde o princípio nos é dito que o mesmo cão não serve para todos os utilizadores. O temperamento do cão tem de ser adaptado ao utilizador.
Chegámos a Sexta-feira. Depois do treino de obediência, fizemos um percurso todos juntos e as coisas correram muito melhor. Era chegado o dia da partida para casa. Depois de uma reunião com o Vítor, que nos fez algumas recomendações para o fim-de--semana, apanhámos o comboio e voltamos a Leça da Palmeira.
Quando chegámos a casa, a Duska ficou muito contente, como geralmente acontece, e o Miró ficou um pouco desconfiado. Conhecia-nos há uma semana, e aquele território era dela. Estávamos na expectativa, pois apesar do que o Vítor tinha dito, não sabíamos como iam correr as coisas. Entre outras, havia uma advertência feita pelo educador, que dizia respeito às refeições. Segundo ele os dois cães deviam comer ao mesmo tempo. Ainda nos lembrávamos do que tinha acontecido no primeiro dia em Mortágua. A Maria João vinha a sair do quarto com um saco de ração na mão, seguida pela Duska, que ao ver o Miró aproximar-se, lhe deu umas rosnadelas o que fez com que ele fugisse assustado e logo tudo se acalmou. Segundo o educador, os cães demonstram a sua dominância na comida, no território e no sexo. Neste caso, o território era da Duska e a comida, no entender dela também.
Assim, fizemos o que nos tinha sido dito, e tudo correu bem. Durante todo o fim-de-semana, o Miró não me deixava. Parecia uma sombra. Agora, passado um mês, continua. Acho que ainda não se sente muito à vontade no território.
Como era inevitável, chegaram os familiares e os amigos para verem o novo membro do nosso agregado, e todos gostaram muito do Miró, pois é um cão muito meigo.
Na segunda-feira, chegou o Vítor. Depois de o pôr ao corrente de tudo o que se tinha passado, e de ele me ter dito que achava que estava tudo muito bem, combinámos os trajectos que tínhamos de fazer. Ele já me tinha pedido em Mortágua para eu lhe apresentar um plano dos percursos que achava importantes. Depois de falarmos, fomos tomar um café e partimos para o trabalho.
O primeiro trajecto era composto por uma viagem de autocarro até Matosinhos, da mudança para o metro e de um percurso a pé na Rua de Santa Catarina no Porto, que para aqueles que não conhecem, posso informar que é uma rua cheia de obstáculos: muitas pessoas a circular, músicos a tocar, esplanadas de cafés, etc. Subimos os três lances de escadas rolantes que dão acesso à rua, e fiquei espantado com o trabalho do meu cão. Apesar da experiência que já tinha com a Duska, achava que pelo facto da entrega ainda estar a ser feita, ou seja, por causa do pouco tempo que tínhamos de trabalho, o Miró estaria ainda um bocado hesitante. Nada disto aconteceu, o seu trabalho foi muito bom. Depois de ter apresentado o meu cão-guia às minhas colegas e aos meus formandos, fomos almoçar.
De tarde, fizemos mais dois percursos. O segundo era bastante complicado, mas mais uma vez o meu cão me surpreendeu. Fez tudo muitíssimo bem. O que mais me impressionou foi a facilidade com que ele decora os trajectos. Quero dizer, que depois de fazer um determinado percurso, o consegue fazer em sentido inverso sem se enganar.
Gostaria aqui de fazer uma ressalva. Não quero que pensem que isto é falta de modéstia, mas acho que o devo referir, pois é importante para quem vai ter o primeiro cão-guia. Mais uma vez, cheguei à conclusão de que uma boa orientação é essencial. Como é óbvio, não estou a inventar nada, pois todos nós utilizadores sabemos que isto é verdade. Aliás tal tem-nos sido dito sempre durante os estágios. Para quem não tem orientação, o cão-guia torna-se um problema e não a sua solução.
Na terça-feira, fomos fazer o trajecto até à Faculdade de Letras do Porto, local de trabalho da Maria João. Mais uma vez entrámos no território da Duska, mas ela recebeu-nos muito bem. Toda a gente gostou do Miró e num dos trajectos tivemos oportunidade de fazer um determinado cruzamento, que por incrível que pareça julgávamos estar organizado de outra forma.
Na Quarta-feira à tarde fomos para a praia de Leça da Palmeira com os dois cães. Fizemos obediência e depois eles brincaram e correram, uma recompensa justa para o trabalho que desempenharam.
Não vou descrever mais o estágio, digo apenas que acabou na Sexta-feira, com uma grande conversa entre mim e o Vítor.
Neste momento, o meu cão-guia e eu fazemos uma dupla, ainda sujeita a aperfeiçoamentos no que diz respeito ao trabalho e à nossa relação, mas está tudo a correr muito bem. O Miró surpreende-me todos os dias.
Quero apenas sintetizar algumas ideias que fui expondo durante o texto, que me parecem importantes e que são:
Quero mais uma vez agradecer à ABAADV e especialmente ao Vítor Costa, que se me é permitido é um “chato” durante os estágios, mas que me ajudou muito, tanto na forma de conduzir o estágio como pelos conselhos que me deu.
João Eduardo Fernandes - Agosto 2007