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A importância da obediência depois da entrega de um Cão-Guia

Como educador acho que na evolução técnica que o Cão-Guia deve ter na sua aprendizagem, sempre longa e progressiva, a obediência é preponderante para que os conhecimentos adquiridos nesse período estejam bem assimilados e interiorizados, para que quando postos em prática consigam resolver de forma autónoma e segura as situações encontradas pelo cego no seu dia-a-dia.

Considero que a formação técnica de um Cão-Guia é a formação mais intensa e completa que existe no mundo da cinofilia, porque o cão futuramente terá de resolver situações complexas de alguém que não tem uma capacidade de antecipação, verificação e consequente resolução desses problemas. Esta formação técnica é conseguida após um período de socialização, sem o qual a educação de um Cão-Guia seria impossível. Baseia-se em três fases fundamentais:

1. Apresentação de uma determinada situação e aprendizagem de uma ordem específica relativa a essa situação;

2. Repetição do comportamento associado a uma ordem específica;

3. Verificação do comportamento e interiorização da aprendizagem.

Depois de atingidas estas três fases, o educador preocupar-se-á em determinara a consistência, maturidade e responsabilidade com que o seu cão desempenha as suas acções, quer no exterior (cidade) quer no interior (meio profissional, social e familiar), para que em certos momentos da sua vida como Cão-Guia consiga tomar, não a meu ver decisões cognitivas, mas não menos importantes, atitudes que salvaguardem a integridade física do seu dono, mesmo que para isso, por vezes, seja necessário ir contra a ordem dada por ele. Apesar de estar hierarquicamente abaixo do seu dono, consegue sobrepor-se a este se a situação o exigir.

Após esta reflexão, podemos considerar que a obediência terá que estar sempre presente nos diferentes processos de evolução comportamental, temperamental e técnica do Cão-Guia.

A obediência começa a tornar-se indispensável a partir do momento em que o cachorro deixa de estar sob o abrigo da sua mãe, e começa a estar sob o domínio dos seres humanos , momento em que estes pretendem que o cachorro comece a adquirir regras e normas de conduta específicas ao ser humano. Para que a interiorização destas regras seja feita, o processo hierárquico tem de estar bem definido. No período de socialização, a obediência é fundamental e tem que ser transmitida de uma forma consistente e regular para que comece a ser comum ao dia-a-dia do cão.

No período técnico, a obediência é tida por mim como factor fundamental e imprescindível na relação de trabalho entre o educador e o seu cão, para que esta se torne sólida e constante, de acordo com os objectivos pretendidos. A obediência permite solidificar, paralelamente ao trabalho técnico de "guidagem", os conhecimentos adquiridos durante o trabalho com o arnês e nas mais variadas confrontações que o Cão-Guia tem no seu dia-a-dia, sejam elas no exterior ou no seu mais íntimo ambiente familiar. O que seria estarmos perante um Cão-Guia que trabalhasse bem com o seu arnês numa grande cidade, e que o seu utilizador não o pudesse soltar, sabendo que ele fugiria, ou que não pudesse ir a um restaurante, sabendo que o seu cão não iria permanecer quieto ao seu lado durante todo o tempo. Todas estas manifestações aqui descritas devem ser transportadas para o período após a entrega, tendo a mesma importância, porque é neste período que o Cão-Guia irá ser realmente testado e posto à prova em relação às suas capacidades, devendo o seu utilizador retirar da sua mente a ideia de que o seu Cão-Guia está educado e não precisa de fazer mais nada. Este conceito está errado, o processo de educação de um Cão-Guia continua após a entrega, adaptando o Cão toda a sua aprendizagem a uma pessoa que só após algum tempo começa a conhecer como seu dono, bem diferente daqueles que teve até agora. Por isto, é natural que a descontracção e o à-vontade se estabeleçam como resultado de um bom trabalho que o seu Cão-Guia está a executar. Tal como todas as profissões, e esta não é diferente, terá que ter de vez em quando, períodos de reciclagem e de contínua formação.

Sendo assim, aconselho todos os utilizadores de Cão-Guia a não deixarem de executar com uma regularidade que considerem necessária, e transmitida pelos educadores dos seus cães, treino de obediência conjuntamente com o trabalho diário de "guidagem", para que os cães sintam que o seu período de formação continua, gerido agora pelo seu dono definitivo.

Por: Vitor Costa (Educador de Cães-Guia da ABAADV)
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